Raquel P., 20 anos, Lisboa

Como mulher, envolvida no movimento feminista, tornou-se imprescindível posicionar-me quanto à questão da prostituição.

Este é um tema fulcral para todos os coletivos, organizações e militantes, sem o qual é praticamente impossível escrever-se, falar-se ou atuar no seio do movimento feminista e pela defesa dos direitos das mulheres.

Passei a ter várias discussões sobre o assunto e pensava que não devíamos estar contra a prostituição, pois estaríamos a ser moralistas e paternalistas perante mulheres com vontade e discernimento para decidirem sobre si próprias e os seus corpos, lutando pela sua sobrevivência económica neste mundo.

Contudo, depois de ter começado a ler a sério sobre o assunto, a ver documentários e a informar-me estatisticamente, passei a compreender melhor como funciona a prostituição e como é um sistema.

Participei da formação abolicionista do EXIT onde tive oportunidade de conhecer organizações portuguesas a trabalhar no terreno como a ERGUE-TE e O NINHO, entre outros oradores. Também estive presente no APELO DE BRUXELAS, onde pude ouvir em primeira mão as histórias das sobreviventes. Estar em contacto com o trabalho de dezenas de organizações europeias ajudou-me a consolidar e sustentar a minha posição como abolicionista.

Atualmente, acho indispensável todas e todos estarmos empenhados na luta por uma sociedade livre de prostituição. Acredito que é um assunto que diz respeito a todas e todos nós porque legalizar a prostituição transparece para toda a gente que é possível acedermos aos corpos das mulheres (a maioria a prostituir-se) se pagarmos por isso. Portanto, como mulher, este pensamento também me afeta ao perpetuar misoginia, machismo e patriarcado.

Já não acho moralista lutar pelo fim da prostituição porque prostituir-me não é sobre ter uma sexualidade livre, mas sim sobre coerção através do dinheiro.

Se estão a pagar então não existe consentimento. É uma forma de exploração brutal, extremamente violenta, física e psicologicamente, além de machista na sua estrutura.

Legalizar a atividade acarreta inúmeros problemas políticos e sociais. Além de alimentar a ideia de que podemos pagar por sexo também contribui, por exemplo para o aumento do tráfico humano.

Assim, é imprescindível apoiar a saída do sistema da prostituição através de programas específicos de reabilitação social e económica. É importante defendermos um modelo legal que não criminalize quem está na prostituição, mas antes proteja, entendendo que se trata de um sistema do qual é muito difícil sair, e em cuja média de entrada ronda os 14 anos.

Por fim, quem está em posição de crime são os compradores de sexo. A procura deve ser combatida não só através de leis, mas também da educação. Devemos formar homens que não acreditem ser possível comprar consentimento e que não compactuem com a exploração do sistema de prostituição.

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