Guilherme C., 21 anos, Lisboa

O que pensas quando se fala em prostituição? Achas que seria melhor combater o sistema através de políticas abolicionistas ou regulamentar como uma atividade profissional?

O debate em torno da prostituição tem vindo a acontecer revestido por contradições sociais, políticas e económicas. No entanto não podemos escamotear que todo este cenário assenta numa violação aos direitos humanos dentro das diversas esferas institucionais. Ora, se o plano da ação se distingue do plano conceptual, então poderemos nós viver numa sociedade democrática marcada pela violação dos direitos humanos? Não é (como outrora o senso comum nos convencia) uma realidade distante. Estamos a falar de uma realidade que tem vindo a ser forjada pelos grandes interesses instalados, funcionando enquanto um sistema estruturante e estruturado que quer definir a essência da condição humana. Acho mesmo que as políticas abolicionistas são os meios mais eficazes para abalar esses interesses que têm vindo a contribuir para eternizar e efemerizar uma subordinação acolhida, errada e incorretamente, por um “saber de categoria sexual”. O abolicionismo é, assim, o caminho. É por este motivo que só através da criminalização dos compradores de sexo e através da elaboração de programas de saída se pode começar a (re)construir uma mentalidade coletiva assente na dignidade humana.

Achas que estás a ser devidamente informad@ (por órgãos de comunicação ou instituições governamentais etc.) do debate sobre o abolicionismo e/ou sobre a regulamentação?

Não, o debate em torno da prostituição tem visto uma fraca difusão por parte dos órgãos de comunicação. As suas razões, no meu entendimento, baseiam-se nos sistemas de valores retrógrados e antiquados dos responsáveis dos órgãos de comunicação social e, ainda, pela neblina de incerteza em que a generalidade das pessoas procura ficar face às que procuram, de facto, obter contributos para a reflexão. Esperar a “boa” vontade dos órgãos de comunicação social não é, de forma alguma, solução, até porque, desta forma, o raciocino que é prestado pela não-comunicação é o da existência de uma “escolha” que ultrapassa a necessidade individual.

Sentes que o sistema da prostituição é perigoso? Porquê?

O sistema da prostituição é perigoso e não deve haver qualquer espaço para dúvidas. Um sistema que faça com que 9 em cada 10 mulheres queira sair da prostituição, onde 68% das pessoas apresentem algum tipo de stress pós-traumático e onde 94% das mulheres são vítimas de violência (em Portugal) não deixa espaço para dúvidas. É altamente nocivo e é necessário atuar já para findar a ideia da existência de uma “escolha” ou de uma liberdade de natureza individual.

Porque é que achas que abolir o sistema da prostituição é fundamental?

A sua abolição é fundamental por forma a criminalizar os compradores de sexo e para apoiar quem está na prostituição com programas de saída. Não devemos engendrar numa mentalidade unilateral que dita que o comprador tem sempre razão e, por isso, ele é que decide, uma vez que dessa forma nunca se irá ultrapassar a questão da objetificação da mulher e das relações de dominação assentes nas diferenças de sexo.

Deixe um comentário