À conversa com Francisca C., 23 anos

O que pensas quando se fala em prostituição? Achas que seria melhor combater o sistema através de políticas abolicionistas ou regulamentar como uma atividade profissional?

Ao falar de prostituição, tenho sempre de ter em mente alguns conceitos fulcrais: respeito (pessoa e a sua história), o corpo (físico e psicológico) e, para além disto, é importante pensar em todo o possível espectro de ilegalidade e de abuso da envolvente externa da pessoa. 

Não tenho qualquer dúvida que o caminho a seguir para combater o sistema é só, e apenas, com políticas abolicionistas. Porque, caso regulamentássemos, o que é que se tornaria normal? Nem me passa pela cabeça a minha filha desistir do seu percurso académico de engenharia, medicina, educação, etc., para seguir prostituição. O corpo da minha filha vai passar a ser o seu local de trabalho e ganha pão? A prostituição não é, nem pode ser, uma “opção de carreira” a seguir. 

Na minha opinião, o que se deveria tornar normal seria proteger a vida da pessoa em causa e ajudá-la a sair do sistema, punir quem compra sexo e, no fundo, quem acha que tem uma coroa imaginária que lhe dá o poder de aproveitar, abusar, magoar e matar outra pessoa. Pois, verdade seja dita, são todos cenárias possíveis, e nunca deixariam de o ser, mesmo com a regulamentação desta atividade. 

Achas que estás a ser devidamente informada do debate sobre o abolicionismo e/ou sobre a regulamentação?

Pouco se fala de prostituição em PT. Não é um tema tão discutido como deveria ser, culpa de órgãos de comunicação ou de instituições governamentais. A população portuguesa não está informada, não tem uma opinião consolidada e, portanto, continua a ter conversas pouco acesas e com poucos factos. Continuamos presos a falsas verdades, esta é a triste realidade. No entanto, tenho a sorte de ter uma pessoa dentro do meu círculo de amigas que incentiva a discussão e que nos dá um bom puxão para a realidade o que, felizmente, nos leva a estar a par da situação em PT.

Estou informada acerca do debate em questão e, mais uma vez, vejo o modelo abolicionista como o único caminho a seguir. 

Sentes que o sistema da prostituição é perigoso? Porquê?

Acho que é senso comum a vasta rede de negócios ilegais que existem no sistema de prostituição e que podem emergir com mais força num sistema que a regulamenta como atividade profissional, como tráfico sexual, humano e de menores. Porque, verdade seja dita, é sempre difícil controlar ou contar com pessoas honestas neste mundo de contactos e dinheiro. Já para não falar de que é um negócio dominado por homens, o que deixa claramente as mulheres em desvantagem por diferentes fatores. 

Ao longo dos anos tem-se vindo a descobrir várias redes de tráfico humano e sexual que duraram anos, anos e anos. Sabemos que as coisas funcionam devagar. Ao tornar esta atividade legal, estamos possivelmente a colocar pessoas nestas outras redes omitidas durantes anos, anos e anos. 

Porque é que achas que abolir o sistema da prostituição é fundamental?

O corpo de uma mulher não está a venda, não pode estar ao dispor de outro apenas para usufruto e prazer alheios. 

A prostituição é um tipo de escravatura moderna que nunca terá 100% de controlo, nem nunca trará 100% de segurança às vítimas deste negócio, mesmo que os ingénuos defensores da sua regulamentação o venham defender. 

A verdade dura e crua é que o sistema da prostituição é um mundo sem fim de abuso. E, mesmo podendo haver uma ínfima mínima percentagem de mulheres que opte por esse caminho, não devemos pensar na grande maioria silenciosa que não optou? 

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